Por Maria Lúcia Zanelli
Sempre fui uma pessoa com imensa dificuldade para dizer adeus. Fosse no trabalho, na escola, nas amizades, nos relacionamentos, na família ou nos lugares por onde passei. Para mim, a despedida sempre beirou uma tragédia grega. As pessoas não apenas faziam parte da minha trajetória: eu sentia como se cada uma delas fosse uma extensão da minha própria existência.
Ao longo da vida, enfrentei perdas dolorosas. Perdi minha mãe, meu pai, minha sogra, a avó do meu marido, meu orientador e amores do passado. A elaboração do luto nunca foi um caminho simples para mim. Hoje, me vejo atravessando uma crise existencial, um momento de depressão que me fez reconhecer a urgência de buscar ajuda com uma psicóloga. Foi na terapia, ao começar a expor os projetos que deixei estagnados e o acúmulo de roupas e objetos espalhados pela casa, que precisei encarar a minha dor. E colocar a dor em palavras é uma das tarefas mais difíceis que existem.
Como se o peso interno não bastasse, a crescente polarização política tornou o ambiente ao nosso redor quase insustentável. Pessoas que eu admirava profundamente começaram a revelar comportamentos dolorosos e a forma como tratam quem pensa e age diferente. Jamais imaginei que me distanciaria de um grande amigo por conta de política. Um amigo a quem sempre estendi a mão, a quem defendi incansavelmente quando outros apontavam o dedo ou alimentavam fofocas quando ele chegava. Eu sempre o mantive sob a minha proteção.
Minha aversão a discussões políticas não nasceu ao acaso. Trabalhei durante 23 anos em uma estatal diretamente ligada ao Palácio dos Bandeirantes, sede do governo paulista. A cada eleição, o coração dos funcionários ficava na mão, assombrado pelo medo constante das demissões em massa que acompanhavam as trocas de gestão. Em uma dessas administrações, vivemos quatro longos anos sob a ameaça do desemprego — período em que a nova presidência demitiu, de uma só vez, 360 funcionários para contratar, a peso de ouro, 400 conhecidos. Trabalhar ali deixou cicatrizes profundas sobre o que a política partidária pode fazer na vida real das pessoas.
E é aqui que retomo o ato de dizer adeus.
Decidi me despedir desse amigo. Mesmo após repetidos pedidos meus, ele continua a me enviar conteúdos do seu candidato favorito, insistindo em mensagens carregadas de desrespeito e hostilidade. Ele ultrapassou a linha do limite e da consideração mútua.
Nestes momentos, percebo que preciso me recolher e passar a me respeitar. É a hora em que a vida nos exige separar o joio do trigo e encarar que as pessoas mudam — algumas para melhor, outras para pior. Hoje, entendo que a autopreservação vem em primeiro lugar. E que dizer adeus, por mais doloroso que seja, às vezes é a única forma de sobreviver e proteger a nossa própria paz.
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